A minha infância foi vivida na Rua Mariano Procópio, Bairro Alto da Fábrica, em Barbacena, onde nasci e me criei. Nossa casa, nº 161, ficava no centro de um terreno grande. Atrás dela tinha abacateiro, amoreiras que junto aos espinhos do ora-pro-nóbis formavam uma cerca viva, pessegueiro, bananeira, mamoeiro, laranjeira e uma ameixeira que era o orgulho da casa. Na época dos frutos, ela se transformava num espetáculo de cores pela quantidade, qualidade e tamanho deles. Do lado direito, cultivávamos vários canteiros, separados pelo tipo da plantação. O das hortaliças nos oferecia couve, alface, cebolinha, salsa, espinafre, jiló, quiabo, pimentão e tomate. No outro, cultivávamos plantas medicinais do tipo: losna, hortelã, boldo, alecrim, arnica, arruda, confrei, carqueja, coentro, erva-cidreira, funcho, marcela, malva, babosa e sálvia. Parecia uma farmácia. Na frente da casa, reinavam as flores com suas belezas e perfumes onde destacavam as avencas, samambaia, lírios, cactos variados, beijos, margarida, azaleia, dália, orquídea, copo de leite, violeta, hortênsia, margarida, rosa, palma, lágrima de cristo e um girassol maravilhoso.

Constantemente recebíamos visitas de pessoas que vinham de todos os cantos na busca de ervas, mudas de flores e algumas hortaliças. Todos eram atendidos pela minha mãe com simpatia e um largo sorriso, sem reclamar. Limpeza e cultivo eram suas manias. Quanto exagero! Ela aguava, varria e matava as pragas que teimavam em danificar suas plantas. Para torná-las viçosas e fortes, além do amor, ela utilizava terra preparada com fertilizantes naturais como esterco animal, casca de ovo, cinza e casca de batata. A limpeza do local espantava tudo que era ofensivo às plantas. Uma vez ela ralhou comigo só porque expulsei do canteiro dois sapos. Ela disse que eles comiam as pragas e protegiam as plantas.

Por analogia...

Em abril de 1792, Tiradentes foi julgado e condenado à morte por traição à pátria. Eis a sentença: “Portanto, condenaram o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, à forca. E que seu corpo seja dividido em quatro quartos e que sejam pregados em postes pelo caminho de Minas Gerais, nas localidades de Varginha e Cebolas, onde o réu teve suas práticas, e mais nos lugares de maior população até que o tempo também os consuma. Declaram o réu infame e seus filhos e netos, tendo-os, e que seus bens revertam para o fisco e a Câmara Real. Que a casa em que vivia seja arrasada e depois salgada para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria, seja avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados. No mesmo chão se levantaria um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu”. Outros réus foram condenados ao degredo para Angola e outros condenados a açoites pelas vias públicas.

De 1964 a 1984, o Brasil foi administrado politicamente por militares. Para eles, a democracia estava em perigo pelas investidas de cidadãos subversivos, comunistas e de líderes de países comunistas. Muitos deles foram presos, torturados, mortos ou desapareceram misteriosamente e muitos foram exilados para diversos países. Com a volta do governo civil, muitos foram beneficiados com a anistia ampla, geral e irrestrita e tiveram seus direitos políticos devolvidos. O governo federal está pagando indenizações aos familiares que têm membros “desaparecidos” ou mortos.

Na horta da minha mãe, o cuidado com a limpeza para que as pragas não retornassem era questão de honra. Ao retornarem, adquiriam força, vigor, energia, espírito de vingança e ficavam resistentes aos agrotóxicos.

Na Inconfidência Mineira, o governo português com esse medo, tratou logo de salgar a terra e arrasar as casas que tiveram contato com Tiradentes. O governo estava errado por cobrar tributos abusivos. O ato heroico dos Inconfidentes acendeu a chama da liberdade do nosso país. Estávamos diante de brasileiros comprometidos com os reclames do povo onde não existiam vaidades e corrupções e sim os anseios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade para um país justo e perfeito.

E após o governo militar? Será que tiveram o devido cuidado ao conceder aos presos políticos a anistia ampla? Olhando para o governo atual, enxergamos lá muitos líderes dos escândalos que corrompem a nossa democracia pela falta de ética, moral, vergonha, respeito, pudor e que foram anistiados. Talvez faltasse um defensivo político mais eficaz para eles. Minha mãe ensinou-me uma coisa e que sirva de lição: as doenças aparecem pela vulnerabilidade das plantas, do mesmo modo acontece entre os seres humanos. Elas precisam de condições especiais para se desenvolverem e os seres humanos necessitam de vergonha na cara, um pouco de estima e de amor próprio para combater o vampirismo desses políticos demagogos que roubam nossa energia, alma e vida.

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Escrito por Francisco de Santana