Nos idos anos 2003, participei em Ubá de uma coletiva do renomado escritor Affonso Romano de Sant`Anna. Ele estava lançando na época o seu livro intitulado A sedução da Palavra. Foi um momento especial na minha vida acadêmica. Inteligente, talentoso e simpático, ele não fugiu de nenhuma pergunta. Após a coletiva, conversamos sobre a coincidência do nosso sobrenome: “Santana e Sant`Anna”. Fiquei admirado pela sua facilidade de se comunicar e fascinado pelas definições de palavras e pensamentos. Ainda guardo na memória frases como: “A palavra ao ser pronunciada, já não nos pertence. O orador é falado pelo seu discurso”. “O silêncio também fala. É isso que se aprende durante as ditaduras. E, por outro lado, durante as democracias se aprende que o discurso nem sempre diz”.

Coincidentemente na mesma semana, apresentamos um trabalho de cunho filosófico sobre a “palavra”. Como subsídio, a professora nos apresentou um texto intitulado: “As três peneiras de Sócrates”. Quer conhecê-lo:

Na Grécia antiga, Sócrates era um mestre reconhecido por sua sabedoria. Certo dia, o grande filósofo se encontrou com um conhecido que lhe disse:

— Sócrates, sabe o que acabo de ouvir sobre um de seus alunos?

— Um momento, respondeu Sócrates. Antes de me dizer, gostaria que você passasse por um pequeno teste. Chama-se "Teste dos três filtros".

— Três filtros?

— Sim, continuou Sócrates. Antes de me contar o que quer que seja sobre meu aluno, é bom pensar um pouco e filtrar o que vais me dizer.

O primeiro filtro é o da Verdade. Estás completamente seguro de que o que me vai dizer é verdade?

— Bem... Acabo de saber...

— Então, sem saber se é verdade, ainda assim quer me contar?

Vamos ao segundo filtro, que é o da Bondade. Quer me contar algo de bom sobre meu aluno?

— Não, pelo contrário.

— Então, interrompeu Sócrates, queres me contar algo de ruim sobre ele, que não sabes se é verdade!

Ora veja! Ainda podes passar no teste, pois ainda resta o terceiro filtro, que é o da Utilidade. O que queres me contar vai ser útil para mim?

— Acho que não muito.

— Portanto, concluiu Sócrates, se o que você quer me contar pode não ser verdade, não ser bom e pode não ser útil, então para que contar?

Vários alunos apresentaram trabalhos interessantes. Lembro-me de um que chamou a minha atenção. Ele foi escrito pela colega Jornalista, Jane Gaspar dos Santos. Vou destacar uma parte que diz: “... a palavra, como a roupa, também precisa ser lavada, escovada, pendurada ao sol. Sua função real é ser elo de ligação, ponte de união entre os seres vivos, pois morre-se mais pelas palavras que pelas armas. A língua pode ser o melhor pedaço de carne no ser humano quando usada com bondade, sabedoria e de todas o pior, quando usada com arrogância e maledicência. Tenha cuidado de não pecar pela língua, para não cair na presença dos inimigos que lhe espreitam e para que não venha o seu pecado a ser incurável e mortal”.

A fofoca nos desestabiliza, irrita, estressa, corrói, preocupa e nos tira do sério. Sabemos que na fofoca ou na calúnia quem se expõe são as figuras dos caluniadores e fofoqueiros, mas há uma grande maioria que prefere acreditar neles. Sobre a fofoca, minha mãe usava um ditado: “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Lembro-me de ter levado à sério as recomendações alimentares de uma endocrinologista. Emagreci com saúde. Radicalizei na barbearia, passei máquina dois na cabeça. Notei alguns olhares curiosos ao caminhar. Um colega veio a mim e me perguntou:

- Quimioterapia dói?

- O quêêêêêêêêê!!!!!!!!! Como vou saber se nunca fiz? Por que a pergunta?

- Tem uma porção de gente na rua dizendo que você emagreceu, caiu o cabelo e que você está com câncer.

- Falaram o local?

- Uns falam que é no estômago e outros falam que é no intestino.

Eu simplesmente fomentei a curiosidade dele por conhecer a sua fama de fofoqueiro. É como disse o Papa Francisco: “As pessoas invejosas e ciumentas são amargas: não sabem cantar, não sabem louvar e não conhecem a alegria. Semeiam sua amargura e a difundem em toda a comunidade. Outra consequência deste comportamento são os mexericos, porque quando uma pessoa não tolera que outra tenha algo que ela não tem, tenta ‘rebaixá-la’, falando mal dela. Vejam: por trás de uma fofoca estão sempre ciúmes e inveja”.

O apóstolo Mateus já dizia: “Por nossas palavras seremos justificados, e por nossas palavras seremos condenados”.

Reflitam!

--
Escrito por Francisco de Santana