Eu não queria admitir, não queria aceitar, não queria assumir, mas admito, aceito e assumo que sou um consumista contumaz, presa fácil das propagandas. Vou poupá-los de rir. Prefiro não citar as inúmeras compras realizadas que não me serviram para nada. No final, acabo doando. Se não serve para mim, serve para o outro.

Imelda Marcos, esposa do ex-ditador das Filipinas Ferdinando Marcos é outra consumista conhecidíssima pelo seu folclórico guarda-roupa: aproximadamente 3 mil pares de sapatos das marcas Gucci, Charles Jourdan, Christian Dior, Ferragamo, Chanel e Prada, 1.500 bolsas, 1.400 vestidos longos, 110 óculos escuros e 48 casacos de pele de mink. Visitei o meu armário para ver o que tinha lá. Encontrei: um sapatênis, dois pares de chinelos havaianas, dois pares de tênis e três pares de sapatos. Um deles valiosíssimo, uma relíquia. É um da marca Vulcabrás, preto e de cadarço. Lembra? Fui a várias lojas para comprar e todos me indicaram a Casa Moreira quando ela ainda funcionava na Rua Vigário Brito nº 10, no centro de Barbacena. Lá, o atendente dissera-me que eles não mais trabalhavam com essa marca há muito tempo. Ao ouvir essa frase, veio a mim o proprietário da loja, senhor Sebastião de Assis Moreira (Seu Moreira), simpaticíssimo, me perguntar o número que eu calçava. Em segundos, retornou com um par nas mãos. Era o último. Ele está bem velhinho e já troquei o solado dele duas vezes. Recentemente, fui a Belo Horizonte participar do casamento de uma sobrinha. Meu filho olhou para o meu pé e disse: “Com esse sapato você não vai ao casamento!” Resultado: ganhei dele um de cromo alemão, mas continuo com o meu lendário Vulcabrás.

Imelda me fez refletir e pensar no que disse o Espírito de André Luiz. “Não converta o próprio lar em museu. Utensílio inútil em casa será utilidade na casa alheia. O desapego começa das pequeninas coisas, e o objeto conservado, sem aplicação no recesso da moradia, explora os sentimentos do morador. A verdadeira morte começa na estagnação. Quem faz circular os empréstimos de Deus, renova o próprio caminho. Transfigure os apetrechos, que lhes sejam inúteis, em forças vivas do bem. Retirem da despensa os gêneros alimentícios, que descansam esquecidos, para a distribuição fraterna aos companheiros de estômago atormentado. Reviste o guarda-roupa, libertando os cabides das vestes que você não usa, conduzindo-as aos viajores desnudos da estrada. Estenda os pares de sapatos, que lhes sobram, aos pés descalços que transitam em derredor. Elimine do mobiliário as peças excedentes, aumentando a alegria das habitações menos felizes. Revolva os guardados em gavetas ou porões, dando aplicação aos objetos parados de seu uso pessoal. Transforme em patrimônio alheio os livros empoeirados que você não consulta, endereçando-os ao leitor sem recursos. Examine a bolsa, dando um pouco mais que os simples compromissos da fraternidade, mostrando gratidão pelos acréscimos da Divina Misericórdia que você recebe. Ofereça ao irmão comum alguma relíquia ou lembrança afetiva de parentes e amigos, ora na Pátria Espiritual, enviando aos que partiram maior contentamento com tal gesto. Renovemos a vida constantemente, cada ano, cada mês, cada dia. Previna-se hoje contra o remorso de amanhã. O excesso de nossa vida cria a necessidade do semelhante. Ajude a casa de assistência coletiva. Divulgue o livro nobre. Medique os enfermos. Aplaque a fome alheia. Enxugue lágrimas. Socorra feridas. Quando buscamos a intimidade do Senhor, os valores mumificados em nossas mãos ressurgem nas mãos dos outros, em exaltação de amor e luz para todas as criaturas de Deus”.

Um dos grandes problemas do ser humano, no que diz respeito à preocupação com o acúmulo de bens, é a insegurança. A sua origem está no fato de superestimarmos nossas necessidades essenciais. Pensamos demasiadamente em nós mesmos e vivemos tão angustiados, tensos, preocupados com pequenos problemas a fermentarem nossa mente, que não temos tempo para parar e pensar em Deus, que alimenta à saciedade, a ave humilde e veste de beleza incomparável a erva do campo.

“Não acumuleis tesouros na terra, pois que são perecíveis. Acumulai-os no céu, onde são eternos” (Jesus Cristo). Isso quer dizer: não devemos dar aos bens materiais mais importância do que aos espirituais e saibamos sacrificar os primeiros aos segundos.

Deixo o meu recado: diariamente precisamos aprender, trabalhar, servir e edificar.

(Fonte: Livro Estudo Sistematizado da Doutrina Escrita).

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Escrito por Francisco de Santana