No dia 25 de agosto, comemora-se o Dia do Soldado, porque nessa data, no ano de 1803, nascia na cidade de Estrela, no Estado do Rio de Janeiro, Luiz Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, o maior soldado-estadista do nosso país.

Em 25 de agosto, final da década de 1960, o quartel general de Juiz de Fora estava em festa para homenagear o soldado pelo seu dia. O pátio estava lindo! Árvores podadas, caules pintados, chão varrido para receber militares da ativa, reformados, familiares, amigos, bajuladores, curiosos, cachorros, gatos, cavalos, passarinhos, mídia e fotógrafos. Os militares estavam impecáveis, trajando uniformes engomados, sapatos lustrados, cabelos cortados, barba feita e metais brilhando.

O corneteiro Redentor dá o toque. É o chamado para todos se posicionarem, porque a Santa Missa iria começar. No altar, improvisado estava o Capitão Capelão, homem alto, forte, sorridente, simpático e muito carismático. Além dele, Ezequiel, o experiente coroinha e eu, responsável pela sonorização do evento no meio de muitos fios, microfones, mesa de som e pedestais. Eu tremia e suava. Ezequiel tremia mais, suava mais, parecia estar prestes a enfartar. Ele estava elegante, impecável e pomposo dentro do paramento.

Nós, soldados, nos preparamos muito para esse momento. Era inadmissível algo sair do contexto, treinamos exaustivamente. Sabíamos de cor e salteado toda a ritualística. Aprendemos orações, algumas canções e até a nos comportar diante da figura de Deus – Seriedade e Respeito.

Tocou o sino e o ritual da Santa Missa começou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém. Ezequiel já refeito da ansiedade não se continha, pela primeira vez ele olhava todos de cima para baixo desempenhando com sabedoria, prazer e alegria a sua função. Não mais tremia e com passos firmes balançava com vigor o turíbulo espalhando pelos ares o agradável perfume de incenso e mirra. Da sua voz, saíam leituras com um timbre grave, forte, bonito, pausado, bela pronúncia e bem alta. Ezequiel nos orgulhava. De coadjuvante, ele se transformara num protagonista.

Do altar, eu acompanhava tudo bem de pertinho. O Capitão Capelão fez um sinal, Ezequiel entendeu. Estavam entrosados, pareciam Pelé e Coutinho. Ele pegou a Bíblia abriu-a na página marcada, estufou o peito, fez pose, ajeitou o microfone, deu uma leve tossida, encarou a plateia e leu em voz alta e muito bem pronunciada: É PISTOLA DE SÃO PAULO. Ao ouvir tamanho impropério, o Capelão lhe desferiu um olhar de recriminação e o corrigiu falando baixinho: EPÍSTOLA SOLDADO! É EPÍSTOLA QUE SE DIZ! O microfone captou a recriminação ao nosso Ezequiel. Na plateia muitos riram, outros tiveram vontade, outros comentaram baixinho a gafe do Ezequiel, mas respeitaram o ambiente.

Findada a Santa Missa, o comentário foi geral. Ezequiel ficou desapontado, decepcionado e triste. Sobre a leitura errada ele nos disse que se deixou levar pela emoção. A partir daquele dia, Ezequiel deixou de ser chamado de coroinha ou mulher do padre para se tornar: É PISTOLA DE SÃO PAULO.

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Escrito por Francisco de Santana