Era um sábado gelado do mês de julho de 2014. O restaurante estava lotado. Todos muito bem agasalhados. Eu era mais um de uma mesa composta de 19 pessoas. Só familiares. Comemorávamos o aniversário de minha filha Ana Carolina. Para nossa surpresa, seu namorado a pediu em casamento. Ficaram noivos. Trocaram alianças. Gesto bonito, emocionante. Pensei que estivesse fora de moda, se transformado em história, coisa do passado ou do meu tempo. Tudo está mudado, tudo está mudando. Atrás de nós uma mesa composta de 32 pessoas. Detalhes chamaram a minha atenção. Pelos gritos e vibrações comemoravam algo. Eram jovens, adultos e seis idosos. Entre todos, apenas os seis velhinhos conversavam e comiam. Os demais manuseavam seus celulares, mostrando fotos, piadas, vídeos ou fazendo selfie. Eles não sossegavam nos seus lugares, ficavam de cadeira em cadeira mostrando algo interessante, gritando e gargalhando, chamando a atenção de todos. O garçom a todo instante era chamado para passar para alguém o código da internet.

Li no #Estadãoonline que no Canadá um café vai bloquear todos os sinais de 3G e wi-fi para os clientes. A ideia é acabar com um fenômeno cada vez mais comum: um grupo de pessoas numa mesa usando seus respectivos smartphones, mas sem conversar entre si. A moda se propaga. A popularização desses aparelhos aponta a dependência dos usuários em relação a seus telefones celulares. Esse vício foi batizado de nomofobia, que é a angústia relacionada à possível perda do celular ou à incapacidade de ficar sem o aparelho por mais de um dia.

Há pessoas usando seus celulares que pedem as refeições e se esquecem de comê-las ou levam os talheres ao queixo, aos olhos, à face e menos à boca. Há quem use o celular como talher e o leva ao prato de sopa. Não é absurda essa afirmação. Os dedos ficaram mais ágeis, ligeiros e espertos. A comunicação é em tempo real. Os desatentos estão sujeitos a trombarem com o poste ou serem atropelados.

E os ruídos das comunicações continuam.

Se a palavra selfie – fotografia que a pessoa tira de si mesma, geralmente com um smartphone ou webcam e é carregada em um site de mídia social – foi a palavra do ano de 2013 outra não ficou devendo nada a ela. Eu me refiro a WhatsApp – aplicativo de mensagens multiplataforma que permite trocar mensagens pelo celular sem pagar por SMS. Perceba a confusão que essa palavra provocou na casa do meu amigo José Augusto que sempre foi avesso à tecnologia. Ele não troca a sua lendária Remington pelo computador. Os filhos resolveram presenteá-lo com um celular moderno com o aplicativo WhatsApp. José Augusto se enrolou todo, não conseguia pronunciar e nem guardar essa palavra estranha: WhatsApp. De bom humor e para alegria dos familiares, ele a trocou por Led Zeppelin, banda de rock britânica que fez grande sucesso nos anos 1970, 1980 e 1990. Na roda de amigos, todos riem dele que esnoba dizendo que ganhou um celular dos filhos com um aplicativo sensacional de nome Led Zeppelin. Os amigos, que já passaram dos 60, perguntam: Led Zeppelin? Tem certeza que o nome é esse Zé?”

--
Escrito por Francisco de Santana
Ilustração: Morgan Manginelli