Hoje me entrego a ti,
Senão estou morto!
Em vida plena, também, não estou,
Sou o que restou de mim.
O que ainda em mim sobrevive,
Como veem, em mim não há mais fartura
Esse corpo franzino, que outrora,
Caudal, torrente, por vezes, também mostrei fúria,
Já tive dias de honras
Boa fama, bravuras!
Chamado de divino,
Grande força, e na tipologia d’um menino
Fui veia, transportei, com prazer,
O sangue da terra até você.
Nutri teu solo, fiz brotar vidas, vidas fiz produzir,
Minhas foram as densas margens,
Banhei cidades, banhei mares.
Assim segui.
Decrépito, minhas dores são sérias,
Lembro-me que embalei amores,
Inspirei tuas canções,
Toda aquela água que passou por debaixo daquela ponte,
Mesmo vista ao longe,
Eram lágrimas de felicidades que já não existem.
Ali fiz brotar em meu álveo leito,
E, em meus remansos,
Deitastes juras e paixões,
Assim tudo ao entorno, era feito,
No ritmo que eu mesmo ditava,
Palavra de ordem! Respeito!
Agora, leito tem outro sentido, mais profundo
E nele estou estendido,
E por extensão da palavra,
Deito-me quase moribundo.

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Escrito por
Djalma Jaime Portela