Sempre vivi no interior de São Paulo desde a infância, adolescência até a universidade. Quando adolescente, tinha pavor de sair do meu mundinho caipira e, até hoje, tenho um certo frio na barriga quando vou a grandes centros. Certa vez, quando criança, fui a São Paulo e andando perto de Congonhas, me assustei quando vi um Boeing sair do nada e passar perto do ponto de ônibus onde eu estava. Era uma simples decolagem, mas um filme de terror para mim.

A história que eu vou contar se passa em 1987, quando eu começava meu primeiro emprego de engenheiro de telecomunicações em Campinas. Meu chefe me deu o meu primeiro desafio: “José Carlos, você irá ao Rio de Janeiro para uma missão”. Nossa! Eu nunca havia saído do estado de São Paulo, mal tinha acabado de ver o mar pela primeira vez. O objetivo era banal, era tão somente buscar uma placa de sinalização na CETEL e aprender seus princípios básicos. Tinha certeza que o chefe estava me testando, queria que eu aprendesse a voar como o primeiro desafio de um de passarinho.

Subi tremendo na aeronave em Viracopos, não tinha dormido à noite. Rezei a Deus, confessei meus pecados e agradeci pelos meus vinte e poucos anos vividos. Era o fim de uma precoce existência! Na época, os serviços de bordo eram muito bons. Abri os olhos bem depois da decolagem com a aeromoça me oferecendo um sanduíche de frango. Bom, para encurtar a ida, desci no Galeão e caminhando até a saída, nas escadas rolantes, eu ainda mastigava o tal frango que havia ficado entalado. Profissionalmente, o dia foi muito bom e aprendi tudo da tal placa, mas o frio na barriga começou à tardinha, o pior estava por vir: o voo de volta. Ai, meu Deus!

Nessa viagem, descobri que o sentimento de pavor catalisa a favor das teorias da conspiração. Naquela noite, caiu um dilúvio sem precedentes no Rio e todos os voos foram adiados por mais de duas horas. Eu já seria uma vara verde se o céu fosse de brigadeiro, imagine agora com o mundo caindo. De tanto que enchi o saco da moça da companhia aérea, perguntando a todo momento quando sairia o voo, ela se encheu também e disse antes do anúncio no saguão: “Moço, o gate é o quatro”. Naquele tempo, os embarques eram diferentes dos de hoje, não tinham tantos procedimentos, eram bem mais simples. Entrei no avião praticamente sozinho e aí a dúvida bateu: será que prestei atenção? Será que tomei o avião certo? Tive certeza que havia errado: “Ai, José Carlos, você com certeza será demitido logo na primeira missão e ainda sob gargalhadas de todo o departamento”. Veio finalmente uma ideia: “José Carlos, pergunte à aeromoça para onde vai esse avião”. Mas, ocorreram segundos eternos de indecisão e falhei. Começou a entrar toda a tripulação, agora que não ia perguntar mesmo. E a vergonha do pessoal rir da minha cara. Fiquei quietinho, nervoso e desesperado. Pensei: “José Carlos, pelo menos a companhia é a Transbrasil e você não sairá do país”. Me vi ligando para o chefe lá de Aracaju, no orelhão do Aeroporto e nada do voo decolar, a tensão aumentava a cada segundo e eu suava em bicas. A todo momento pensava: “Caramba, José Carlos, seu banana, não há dúvidas que tomou o avião errado. Ônibus errado tudo bem, mas avião? ”

Finalmente, quando o comandante disse: “Boa noite, senhoras e senhores, nosso tempo estimado de voo até Campinas é de aproximadamente 52 minutos”. Ufa! Graças a Deus! O mundo voltou a ficar azul novamente. A hipótese da patuscada curou meu medo de avião! Bom, mesmo sendo minha segunda decolagem, tornei-me um veterano. O avião decolou e eu, dessa vez tranquilo, brinquei com a aeromoça, cheguei a ajudar uma senhora a guardar seus pertences, me esparramei na poltrona e lá no céu, no infinito mundão de Deus, pensei: “José Carlos, seu bananão”. Aí esbocei um começo de sorriso e finalmente arrisquei um relaxante cochilo. Acordei de repente com o avião chacoalhando feito um liquidificador. Nada, meras turbulências.

--
Escrito por José Carlos Grosso