Era uma vez um rio...

Era madrugada. O frio do mês julho, congelante e soberbo, não dava trégua. Nós nos agasalhávamos ao máximo e embarcávamos na carroceria do caminhão que nos levava para o ribeirão das águas quentes.

O caminhão era nosso meio de transporte, seguia em ziguezague pela estradinha íngreme, contornada pelo belo cerrado com suas árvores tortas e cascudas, donas imponentes da região. Enfim, chegávamos à beira do rio. Ainda era cedo, divisávamos uma nebulosa branca ao redor das águas, num lindo espetáculo natural. Preparávamos para seguir rio adentro e sorver a delícia daquele calor inebriante. Só nós possuíamos um rio caudaloso e quente, mas eu, ainda adolescente, achava aquilo o fim do mundo.

O tempo passou e as coisas mudaram. Alguém mais descobriu nosso velho rio e o transformou em um complexo turístico de largos horizontes. Incontáveis são seus usuários hoje. Homens, mulheres e crianças se deliciam em seu calor quase humano e eu me pergunto: onde está e o que foi feito do nosso velho rio de águas quentes?

Hoje temos em nossa memória tudo que vivenciamos. Nosso lazer era simples e cheio de graça. O companheirismo de todos nós, a simplicidade de cada um eram a própria marca da felicidade. Para nós, não existia lugar melhor no mundo. Tínhamos toda a natureza em nossas mãos e éramos simplesmente felizes.

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Escrito por Maria Helena de Souza