O Natal se aproxima. A fé e a esperança ganham um colorido especial. Aciono a máquina do tempo e contemplo uma juventude plena de certezas e encantos. As lembranças de dezembros quase infinitos continuam cravados em minha mente. São eras que não se arrancam. Elas persistem dentro de mim e, de repente, fluem e me fazem viver ardentemente.

A figura do velhinho de barbas brancas vestido de vermelho me faz criança por alguns instantes. Recordo o sapato no chão à espera do presente desejado. Então, sinto-me privilegiada, porque só as crianças são capazes de perceber as coisas mais lindas do mundo: aquelas que são imperceptíveis aos olhos dos homens e por isso acreditam em Papai Noel. Ele representa um mundo imaginário cheio de alegria, esperança e paz. São sensações difíceis de verbalizar.

Vejo agora luzes que correm uma atrás da outra, piscando em busca de desejos e realizações. A pequena capela do Marco Zero de Caruaru, onde nasci, explode em luminosidade, tal qual o sol ao amanhecer. Vejo no centro da praça um palco com dancings improvisados, barracas com bebidas e petiscos. Ao seu redor, o chamado “quem me quer?” onde garotas com a timidez inerente à época desfilam como se aquilo fosse uma passarela, ostentando o vestido rodado, o sapato novo, algumas até estreando o salto alto. A maquiagem singular deixa ver a troca de olhares com os paqueras que aguardam uma oportunidade para dizer: posso acompanhá-la? Era a hora do sim ou do não. A velha guarda, assiste ao desfile em cadeiras trazidas de casa para sua melhor comodidade. Coisas típicas do interior. As bandas Comercial e Euterpe, em seus coretos, tocam acalentando as fantasias da mocidade. Afinal, a vida é uma música. Muda apenas o ritmo. Nada me escapa à lembrança. No esplendor da festa, os carrosséis giram como a vida. A roda gigante se ergue como se quisesse tocar o céu. Ouço gritos eufóricos. É hora do pastoril. Os comerciantes mais ousados disputam, com inesperadas quantias a vitória do seu cordão. À meia noite do último dia de dezembro, surgem na torre da igreja mais luzes, desta vez em numerais que anunciam a chegada do ano-novo. A girândola é ensurdecedora e até as estrelas se confraternizam.

Jamais esquecerei aquele espetáculo de luzes e cores pintando no fundo da minha alma, imagens também coloridas cuja simbologia era traduzida pela criatividade de um homem capaz de mimetizar arte e beleza: “O Velho Teixeira”. Aquela coreografia não existe mais. Só na imaginação. Morreu com ele.

Hoje, a festa não é mais a mesma. Os rostos daquela época se desfocaram na memória de um passado quase distante. Todos assumiram seus destinos. A capela continua iluminada no Natal de Caruaru, porém as luzes coloridas não correm mais. Cansaram como eu.

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Escrito por: Nícia Santos Souto Maior