Nascente da Serra da Bocaina/SP, o Rio Paraíba do Sul nasce com o nome de Paraitinga e recebe o nome de Paraíba na confluência com o Paraibuna. Percorre e abastece cidades dos estados de São Paulo e Minas Gerais. No estado do Rio de Janeiro, as suas águas transpostas para o rio Guandu, abastecem o Grande Rio.

Seu curso d’água caudaloso de correnteza forte vivenciou o caminho do ouro das Minas Gerais, os casarões dos coronéis do café e seus escravos africanos, a lei áurea da princesa Isabel que aboliu essa escravidão, a chegada dos primeiros imigrantes italianos que substituíram a mão de obra escrava abolida, a caminhada de Dom Pedro I rumo à independência do Brasil, e foi declarado pela língua ferina do escritor Monteiro Lobato o rio das cidades mortas, no início do século XX, quando da decadência e a derrocada da produção cafeeira.

Há 300 anos, em 1717, se fez abençoado pelas mãos de três pescadores que após tentativas frustradas sem peixes, apareceu em suas redes em duas partes, primeiro o corpo e depois a cabeça, uma imagem de barro, de cor escura, que foi retirada de seu leito no porto de Iguaçu. Depois dessa aparição, peixes em abundancias brotavam nas suas redes, e acreditando ser um milagre aquele fato, batizaram a esfinge de Aparecida das águas, Nossa Senhora Aparecida, que, em 16 de julho de 1930, foi proclamada Padroeira do Brasil por decreto do Papa Pio XI.

Cursando o futuro, abeirando-se as suas margens à Estrada de Ferro Central do Brasil e a Via Dutra, elos entre as metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro, pólos do progresso brasileiro, auferindo-lhe riqueza e tecnologia advindas dos empreendimentos abrigados ao longo do seu rico vale.

Entretanto, a insensatez e a ganância dessas iniciativas absorveu-lhe uma poluição descontrolada, de agentes poluidores, rejeitos residenciais, resíduos industriais, da pecuária e da agricultura despejados no seu leito indefeso, subtraindo-lhe a pureza. Ressaltando, além disso, a mineração de areia que provoca erosão, assoreamento dos cursos d’água, contaminação de mananciais, da mata ciliar, tudo acontecendo a mercê de uma fiscalização inadequada e investimentos afins.

Lembro-me e não vai tão longe dos seus bons tempos de rio límpido, quando das cheias vinham as enchentes que alagavam as suas várzeas, inundavam arrozais, e desalojavam os “piraquaras” seus moradores ribeirinhos, e era nessa hora de aflição que os vizinhos se uniam numa ação solidária transportando nas suas pequenas canoas os desabrigados para as casas de parentes e de amigos.

Depois de acudidos, esses moradores alagados e a vizinhança se reuniam para se valerem de uma boa e inusitada decorrência da enchente, “o advento das piquiras”, pequenos peixes da desova que eram mariscados em peneiras. Uma ocasião divertida, enquanto a molecada nadava nas águas da enchente a mulherada com as saias levantadas mariscavam, balançando em sincronia suas peneiras para lá e para cá. Parecia até uma dança ensaiada, e de vez em quando uma delas se desequilibrava, escorregava, e virava com a bunda para cima, provocando risadas, uma farra.

Ao anoitecer, era só alegria, enquanto a criançada e a mulherada comiam as piquiras fritas com farinha de mandioca, os homens bebericavam a malvada pinga, cantarolando e tocando moda de viola.

Em períodos fora da cheia, esses residentes ribeirinhos também tinham o hábito de pescar na beira do rio, usando vara de bambu e minhoca como isca. Não me esqueço do Seu João e da Dona Elza, sua esposa, e da Dona Jorgina sua sogra, que pescavam quase todos os dias, nunca deixando faltar nas suas panelas um apetitoso ensopado de peixe.

Dona Jorgina, além de pescadora, era a única parteira do lugar. Naquela época, desprovido tanto de médico como de hospital, outra aptidão que trazia era a de contar histórias, especialmente as de assombrações. Numa dessas, contava que certa vez pescando sentada num barranco debaixo de um pé de ingá (espécie de árvore nativa), por volta das 6 horas da tarde (o povo dizia que nesse horário não devia pescar por causa das almas dos que morreram afogados e que perambulavam pela beira do rio), fisgou um peixe que parecia ser muito grande. Fez tanta força para tirar o peixe fora d’água que se desequilibrou e “tchiquibum” para dentro do rio. Apavorada agarrou-se num galho do pé de ingá e pingando de molhada, ligeiramente saiu daquelas águas frias, e já no topo do barranco, ao olhar para trás viu um pedaço da roupa branca fisgada no anzol da sua vara de pescar. Desembestada, saiu correndo e, desde esse dia, nunca mais teve a coragem de pescar às 6 horas da tarde, jurando de pés juntos ser verdade o seu conto.

Feito um troféu, ela conservava o pedaço de roupa branca pendurada no cepo de um pau no fundo do quintal da casa para quem não tivesse medo de ver e almejasse certificar-se da coisa.
Eu vi, senti um calafrio e sai correndo. Cruz credo!

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Escrito por Osmar Antônio Ferreira