Mariana era uma menina linda, cabelo longo, cacheado e loiro, olhos castanhos claros, pele muito alva. Parecia ter saído de um quadro de pintura, tamanha era a sua beleza. Uma criança encantadora, sonhadora e de uma personalidade muito marcante, apesar de sua pouca idade.

Filha única, aos cinco anos perdeu o pai, vítima de febre amarela, a quem ela tinha como herói e ele a tinha como uma princesa. A situação financeira da família, que já não era boa, ficou ainda mais difícil com a morte do pai. A mãe ganhava a vida como lavadeira. Sem condições de manter a casa e a filha, viu-se totalmente desamparada e teve que recorrer à ajuda da família, indo morar com uma irmã e, para custear suas despesas e de sua filha, teve que dobrar o trabalho. Durante o dia, quando não estava lavando roupas, saía com enormes trouxas para a entrega-las. À noite, passava a roupa lavada durante o dia. Mal tinha tempo de cuidar da filha, que por sorte tinha primos e primas de idades próximas que brincavam e a distraiam, tornando sua infância menos penosa. As brincadeiras das crianças eram de pique, de esconde, bolinha de gude e bola. Nada muito femininas e sem grandes investimentos em brinquedos.

Um dos sonhos de Mariana era ter uma boneca e um carrinho de bebê para sair pela calçada levando o seu bebezinho, assim como faziam suas vizinhas. Quando não estava brincando de pique ou bola com os meninos, ficava sentadinha no meio-fio, em frente sua casa, observando as outras meninas ninarem e passearem com suas bonecas em seus carrinhos maravilhosos. Eram verdadeiros bebês, tamanho era o cuidado e carinho com que as meninas as tratavam.

Mariana era revoltada por não ter pai, pois achava que somente tendo um pai poderia ter acesso aos brinquedos iguais aos das outras crianças.

A época de Natal era sempre período de muita ansiedade e esperança para as crianças, pois esperavam ganhar os tão sonhados presentes. Mariana acreditava que somente Papai Noel poderia realizar seu sonho e, para que isso fosse possível, fazia sua listinha de presentes que, na verdade, constava apenas de dois itens: uma boneca e um carinho. Mas a cada ano era uma decepção quando chegava o tão esperado dia e a boneca não vinha, ganhava somente alguns doces ou frutas e um corte de tecido.

Como é bom ser criança e ter esperanças. A menina ia crescendo e ano após ano, apesar da decepção do ano anterior e de achar que o Bom Velhinho já não gostava mais dela, no fundo não deixava de acreditar nele. Acreditava que Papai Noel vinha em seu trenó, puxado por garbosas renas e não a abandonaria, assim como fez o seu pai. Ele certamente estava muito ocupado, pois tinha que atender ao pedido de todas as crianças e eram muitos os pedidos, por isso ela deveria esperar e a cada Natal renovar o seu pedido com mais fé e esperança.

Quando já contava com nove anos, na Noite de Natal, muito ansiosa para ver se Papai Noel atenderia a sua cartinha, fingiu dormir e, quando tudo parecia quieto, escondeu-se atrás de um sofá na sala onde ficavam os sapatinhos à espera do presentinho deixado pelo Bom Velhinho. Quase adormeceu, quando então ouviu um barulho. Seus olhos ficaram fixos na porta, pois a casa não tinha chaminé e, é claro, ele só poderia entrar pela porta. Foi aí que ocorreu a maior decepção de todas, o fim de um sonho, a quebra de um encanto, o desabar das esperanças. Viu entrar sua tia com alguns embrulhos que foi distribuindo em cada sapatinho. No de Mariana, foi colocado um vidro de óleo para cabelo, um saquinho de balas, uma maçã e um corte de tecido vermelho. Escondida atrás do sofá, a menina chorou até adormecer. Acordou crescida, amadurecida e sofrida.

Entendeu que a boneca dificilmente viria e que Papai Noel não existia, era uma fantasia, e que seu sonho de criança terminara ali. Prometeu a si mesma que se algum dia tivesse uma filha ela teria todas as bonecas que quisesse e que jamais passaria óleo no cabelo.

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Escrito por Maria Elizabeth Neves Araújo